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O “Coração Negro” de Ribeirão das Neves - Entrevista com Marcos Brey

Por Guidyon Augusto, para o Instituto Cultural Semifusa



O ano de 2020 proporcionou para todas as pessoas de nosso país um cenário dos mais desafiadores. A situação de pandemia da COVID-19 colocou em xeque o discurso vigente de desenvolvimento socioeconômico, jogando diversos segmentos da sociedade em uma crise sem precedentes. Toda essa dinâmica atingiu em cheio a dimensão de produção e fruição cultural brasileira, ponto esse que nos trás até aqui.


O Instituto Cultural Semifusa lança sua coluna de entrevistas especiais enquanto nova frente de projetos de diálogo com a Cidade. Com o intuito de pensar o setor cultural do Município de Ribeirão das Neves, conjuntamente com o contexto social que vivenciamos no quadro mais amplo do Brasil, produziremos uma série de matérias com convidados especiais, pautando temáticas que norteiam os valores da Instituição.


Nossa primeira entrevista será com o músico Marcos Brey, ex-diretor administrativo do Instituto Cultural Semifusa que, em 2018, estreou o disco e espetáculo Alento e, neste ano, lançou o projeto Coração Negro, em parceria com o Coral Vozes de Campanhã. O projeto “Coração Negro” é um dos pontos centrais de nossa entrevista, que você poderá conferir abaixo:



1. Dentro da sua trajetória profissional e pessoal, como tem sido o diálogo com as referências alinhadas à temática da cultura afro-brasileira?


Nos últimos anos tem se intensificado cada vez mais. Nem sempre foi assim, porque eu precisava ter consciência, e a tomada de consciência é um processo que geralmente é lento, devido à complexidade de nossa estrutura cultural. Então, tenho percorrido um caminho de busca, de estar no lugar de sempre discutir as questões raciais, tanto como sociólogo, quanto como artista, e para isso é vital estar sempre atento a pessoas referências nesse sentido.


2. O projeto "Coração Negro", como foi a construção da ideia e qual a principal mensagem que ele tinha a intenção de passar?


Coração Negro nasceu de minha parceria com o Coral Vozes de Campanhã. Ele foi pensado desde o início dessa junção, que começou no princípio de 2019. Eu tinha o desejo de fazer um show ao lado do Coral, fiz o convite e elas aceitaram, o que foi uma grande alegria para mim. Daí, começamos a criar e ensaiar esse espetáculo que na época ainda não tinha o nome Coração Negro. Como a ideia era circular esse show e difundir a cultura negra e nevense, fui pensando em possibilidades de estruturar esse trabalho, e captar recursos era primordial. Com isso, a necessidade de elaborar projetos e enviar para todo edital que nos coubesse.


Então inscrevi o projeto para o 2ª edital do Fundo Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural de Ribeirão das Neves. Foi aí que ganhou o nome Coração Negro, por causa de seu principal objetivo, que é potencializar e divulgar a cultura negra, sobretudo a nevense, em seu cerne, sua verdade, sua alma, por isso o "coração" . Acredito que tudo começa ou perpassa pela educação, por isso o projeto é direcionado à escolas, para ir diretamente nas pessoas que estão em formação, para que elas aprendam e conheçam sobre a própria história e a reverbere. Acredito que a principal mensagem do projeto é a importância, beleza e força da cultura negra para Ribeirão das Neves.


3. O "Coração Negro" executou a maior parte de suas atividades durante o mês de Referência à Memória e Consciência Negra em nosso país. Dada a temática do projeto, a realização do mesmo é bastante simbólica. Você poderia comentar um pouco sobre como o projeto pauta a matriz cultural afro-brasileira, assim como a importância da presença da mesma em ponto de destaque na produção cultural da atualidade?


O projeto vai na raiz da cultura afro-brasileira porque está focado no Quilombo de Nossa Senhora do Rosário de Justinópolis e, se tem algo que desvela a nossa estrutura cultural negra, são os quilombos. Buscamos contar a história que há ali, mesmo que resumidamente, nas lives, nos cards e em nossas músicas que estão em processo de gravação.


Sem dúvida, é muito importante o protagonismo da cultura negra nas produções, porque gostamos do que conhecemos, os nossos gostos são construídos culturalmente, por aquilo vemos e escutamos diariamente. A cultura negra sofre preconceito e não é desejada como outras são porque desde sempre o que conhecemos por meio das produções culturais populares como TV e rádio, são outras culturas, como a cultura americana estadunidense por exemplo. Gostamos dos filmes, das músicas, do jeito de vestir de lá porque vemos isso desde pequenos e conhecemos aquela cultura e, como conhecemos, criamos afeto e queremos ser dela. Nos apropriamos daquilo e, por conseguinte, a valorizamos. Somado a isso, temos a imagem da cultura negra divulgada por essa mesma produção popular, que é um povo escravizado, que está sempre no lugar da subalternidade, ou que é sempre o vilão, o nefasto, que sua religião busca fazer o mal para as pessoas, entre outras coisas. De qual cultura você gostaria de pertencer e de se identificar, tendo os fatos acima?


Por isso a cultura negra precisa ser cada vez mais divulgada e potencializada. Somente assim as pessoas vão começar a se identificar com ela, a entendê-la, a sentir-se parte dela e, assim, valorizá-la e defendê-la. E o que se tem com esse processo é um desdobramento que afeta tudo, porque combate a violência racial física, verbal, psicológica e simbólica. Porque culmina também no consumo de produtos culturais da cultura negra, dinamizando e aquecendo a cadeia produtiva cultural negra.


4. O Projeto foi financiado via incentivo público municipal, certo? Você acredita que é papel do Poder Público incentivar projetos de arte e cultura, ou que esse incentivo caberia mais à esfera privada? Pode nos contar um pouco sobre como foi o processo de produção desde a aprovação até a realização do Projeto?


Sim, todo o projeto é custeado com recurso público, proveniente do Fundo Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural de Ribeirão das Neves.

Se partirmos do entendimento de que a Cultura é um direito, assim como o direito à educação, saúde, por exemplo, entendemos que é dever do Poder Público prover política cultural com incentivos e programas estruturais para o setor, assim como se dá nas outras áreas.


5. Este é nosso momento de opinião livre, gostaria de deixar algum ponto de reflexão, ou opinião direta sobre o momento vivenciado pela cadeia de produção artística neste país?


O setor cultural foi golpeado duramente pela pandemia, uma questão de dois lados extremos, a classe artística que não está produzindo como poderia, e grande parte das pessoas que, por estarem mais em casa, acabam por consumir mais das artes, seja vendo filmes e séries, lendo livros e escutando música. Com esse cenário, o Brasil ainda pode vivenciar o maior "boom" da produção cultural do país, ironicamente, em plena pandemia e justamente devido à ela. A Lei Aldir Blanc, que foi criada para subsídio do setor cultural, é o maior investimento público já visto por aqui, em algumas cidades o recurso já está sendo executado por artistas e profissionais da cultura, e a previsão é de que, até abril de 2021, seja escoado 3 bilhões de reais em projetos emergenciais.

Eu fico pensando que a exceção deveria ser a regra, deveríamos ter uma Aldir Blanc todo ano, porque recurso tem, como estamos vendo. O que é preocupante, na minha visão, é o pós lei. Com essa injeção na cadeia produtiva cultural, temos uma grande oportunidade para começar a desmistificar a imagem da cultura como somente entretenimento, de que há uma rede gigante de profissionais e de serviços, que também gira a economia do país, que gera emprego e que afeta diversos setores. É importante todo o setor da cultura se mobilizar e reivindicar uma política cultural mais sólida e eficaz permanente.




Marcos Brey - Crédito Rodolfo Ataíde


Para conhecer mais sobre o nosso entrevistado:


O músico Marcos Brey tem influências em suas composições do rock inglês e do violão brasileiro. Em 2018, estreou o disco e espetáculo Alento, e esse ano, lançou o projeto Coração Negro, em parceria com o Coral Vozes de Campanhã, que já realizou Lives direcionadas à escolas públicas de Ribeirão das Neves e agora está na fase de gravação de músicas autorais.


Contatos:


E-mail: marcosbrey@gmail.com

Redes Sociais: Instagram e Facebook: @omarcosbrey

Produção: 31 9 8743-7832 | 31 9 9669-9854


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